Brasil VAZAMENTO DE DADOS
STF aponta “múltiplos acessos ilícitos” a dados fiscais de ministros e familiares; PF cumpre mandados em três estados
O episódio ocorre em meio à crise envolvendo a liquidação do banco Master e investigações sobre suposto esquema bilionário de fraude associado à instituição.
18/02/2026 13h11
Por: Patrícia Alves Fonte: Redação | Agência Tocantins
Fachada do edifício sede do Supremo Tribunal Federal - STF (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Supremo Tribunal Federal (STF) informou na terça-feira (17) ter identificado “múltiplos acessos ilícitos” a dados fiscais sigilosos de ministros da Corte e de seus familiares, realizados por servidores da Receita Federal, com posterior vazamento das informações a terceiros. A revelação foi divulgada inicialmente pelo jornal Valor.

Segundo nota oficial, as irregularidades vieram à tona após auditoria solicitada pelo ministro Alexandre de Moraes, que determinou o rastreamento de consultas aos sistemas da Receita envolvendo os dez ministros do STF, seus parentes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Operação da PF e medidas cautelares

Com base nas apurações preliminares, a Polícia Federal deflagrou operação de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A ação foi autorizada por Moraes, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Quatro servidores foram alvos das medidas:

O ministro determinou uma série de medidas cautelares, entre elas:

Até o fechamento da edição do Valor, as defesas dos servidores não haviam sido localizadas.

“Bloco de acessos” sem justificativa funcional

Na nota oficial, o STF detalhou o padrão identificado nas consultas realizadas aos sistemas da Receita Federal.

“Foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas. As investigações iniciais demonstram (…) a existência de ‘bloco de acessos cuja análise, pelas áreas responsáveis, não identificou justificativa funcional’.”

O rastreamento incluiu ministros e familiares — pais, filhos, irmãos e cônjuges. Segundo o jornal, cerca de 100 pessoas podem ter tido dados acessados de maneira ilícita. A motivação ainda é investigada, tanto no inquérito conduzido no Supremo quanto no âmbito administrativo da própria Receita, para apurar eventual motivação política ou esquema de venda de informações.

PGR menciona “suspeitas artificiais”

Ao solicitar as diligências, a PGR afirmou que os fatos podem ir além de uma simples violação de sigilo funcional.

“O caso não se exaure apenas na violação individual do sigilo fiscal, uma vez que a exploração fragmentada e seletiva de informações sigilosas de autoridades públicas, divulgadas sem contexto e sem controle jurisdicional, tem sido instrumentalizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação.”

De acordo com o órgão, as informações fiscais teriam sido utilizadas para alimentar suspeitas contra integrantes do Supremo.

Auditoria da Receita e esclarecimento sobre o PGR

A Receita Federal divulgou duas notas sobre o caso. Na primeira, afirmou que não “tolera desvios” relacionados ao sigilo fiscal e informou que já havia instaurado procedimento para apurar acessos irregulares.

Segundo o órgão, em 12 de janeiro o STF solicitou auditoria para identificar eventuais desvios no acesso a dados de ministros, parentes e outros, nos últimos três anos. O trabalho foi incorporado a procedimento aberto no dia anterior pela Corregedoria da Receita com base em notícias veiculadas pela imprensa.

Em nota posterior, a Receita esclareceu que não foram identificados acessos irregulares a dados fiscais sigilosos do procurador-geral Paulo Gonet nem de seus familiares. A auditoria abrangeu todos os ministros e o PGR, mas isso não significa que tenha havido irregularidade em todos os casos analisados.

Serpro afirma que sistemas são rastreáveis

Em manifestação própria, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) informou que todos os sistemas desenvolvidos e mantidos pela estatal são integralmente rastreáveis, permitindo a identificação e auditoria de eventuais irregularidades.

A empresa destacou que seus empregados não possuem acesso ao conteúdo das bases de dados dos órgãos clientes, limitando-se à provisão e gestão da infraestrutura tecnológica. Segundo a estatal, não há permissão institucional para consulta a informações fiscais ou pessoais armazenadas nas bases sob responsabilidade dos órgãos atendidos.

O Serpro afirmou ainda que permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.

Crise interna e divergências no STF

O episódio ocorre em meio à crise envolvendo a liquidação do banco Master e investigações sobre suposto esquema bilionário de fraude associado à instituição. Reportagem de O Globo revelou que o banco teria contratado o escritório da advogada Viviane Barci, esposa de Moraes, com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões, totalizando cerca de R$ 130 milhões, valor que não teria sido quitado após a liquidação.

Nos bastidores do STF, segundo o Valor, a decisão de Moraes gerou divergências. Um ministro teria afirmado que a medida equivaleria a “quebrar o sigilo em causa própria e vasculhar a vida de inúmeras pessoas”. Outro declarou que não faria “juridicamente nenhum sentido” a ordem e ironizou: “Sendo assim, quem seria o competente [para dar a ordem]? O Papa?”.

Um terceiro magistrado ponderou que o objetivo seria verificar se houve quebras de sigilo ilícitas contra ministros, o que não equivaleria a acessar dados fiscais de colegas, mas admitiu que o momento da decisão poderia ser considerado inadequado diante do cenário de exposição pública da Corte.

Procurado, Alexandre de Moraes não se manifestou até a publicação da reportagem.

Unafisco manifesta “preocupação”

A Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco) divulgou nota manifestando “preocupação” com as medidas cautelares impostas aos servidores.

A entidade afirmou que eventuais irregularidades devem ser rigorosamente apuradas, mas com respeito ao devido processo legal, à presunção de inocência e à proporcionalidade. Segundo a associação, sanções cautelares consideradas extremas exigem fundamentação robusta e lastro probatório consistente, especialmente quando ainda não há conclusão técnica definitiva.

 

 

Reportagem: Allessandro Ferreira / Agência Tocantins