
No tabuleiro político do Tocantins, certas peças se movem com uma previsibilidade que chama atenção nos bastidores do poder. A recente manifestação do senador Irajá Abreu (PSD), ao saudar a filiação de sua mãe, Kátia Abreu, ao Partido dos Trabalhadores (PT), expôs mais do que um gesto protocolar. Ao mesmo tempo em que elogiou a trajetória da ex-senadora, Irajá declarou apoio “incondicional” a Laurez Moreira para o Governo do Estado, sinalizando, na prática, mais um movimento de distanciamento político dentro da própria família.
A cena não é inédita. Trata-se da repetição de um comportamento que já marcou momentos decisivos da política tocantinense. Em 2022, Irajá rompeu, sem aviso prévio, a aliança com o então governador Wanderlei Barbosa, afetando diretamente o projeto eleitoral de Kátia Abreu, que disputava uma vaga ao Senado. O desfecho foi a derrota da ex-ministra para Dorinha Seabra, em uma eleição marcada por reviravoltas na reta final.
Agora, ao optar por não endossar o nome da própria mãe como alternativa ao governo estadual, Irajá antecipa um novo bloqueio político antes mesmo da consolidação de alianças. A diferença, segundo observadores, está na forma. Desta vez, o gesto veio acompanhado de elogios públicos e reconhecimento à trajetória de Kátia, descrita por ele como “um dos melhores quadros da política do estado”. Ainda assim, o recado foi claro: ela não integra o projeto político em curso.
Analistas avaliam que a relação entre mãe e filho não pode ser reduzida a uma dinâmica simplista de vítima e algoz. Ao longo dos anos, Kátia Abreu teve papel central na ascensão política de Irajá, contribuindo diretamente para sua projeção e consolidação no cenário estadual. Ao não impor custos políticos às sucessivas rupturas, acabou, segundo essa leitura, legitimando um modelo de atuação que agora atinge seu próprio espaço político.
O histórico do senador reforça essa percepção. Em 2018, o episódio envolvendo o jurista Márlon Reis tornou-se emblemático nos bastidores. Após incentivar a candidatura, Irajá teria se afastado durante o processo eleitoral, conduzindo uma estratégia paralela que enfraqueceu o aliado, inclusive com a omissão de sua imagem em materiais de campanha.
Situação semelhante ocorreu em 2022 com Osires Damaso. Enquanto Damaso reafirmava publicamente sua lealdade, Irajá adotava uma postura de silêncio e ambiguidade, criando incertezas que, na prática, inviabilizaram o projeto do aliado e abriram espaço para seus próprios movimentos políticos.
Para interlocutores próximos ao cenário estadual, a recorrência desses episódios revela um padrão: alianças que se desfazem nos momentos mais sensíveis, guiadas por conveniências estratégicas. Nesse contexto, o episódio envolvendo Kátia Abreu deixa de ser um caso isolado e passa a ser interpretado como mais um capítulo de uma prática consolidada.
A frase do ex-governador Leonel Brizola — “a política ama a traição e odeia o traidor” — volta a circular nos bastidores como síntese do momento. No caso da família Abreu, a repetição desses movimentos sugere não apenas conflitos pontuais, mas a consolidação de um método político cujos efeitos agora recaem sobre o próprio núcleo familiar.
Reportagem: Patrícia Alves / Agência Tocantins