Tuesday, 11 de May de 2021 06:44
63 98500-8112
Brasil REFLEXÃO

É possível amar sem sofrer?

O maior de todos os desejos é ser desejado, dizia um dos fundadores da psicanálise, Lacan.

11/12/2020 21h46 Atualizada há 5 meses
1.216
Por: Adebar Fernandes Fonte: Adebar Fernandes
Imagem ilustrativa/Divulgação Agência Tocantins
Imagem ilustrativa/Divulgação Agência Tocantins

O maior de todos os desejos é ser desejado, dizia um dos fundadores da psicanálise, Lacan.

A priori, o amor não combina com sofrimento, porque amar é ato curativo, libertador, diretamente ligado à felicidade, contudo, o sofrimento permeia o amor quando o desejo salta os limites da realização possível para a idealização impossível ou irracional.

O amor não é incondicional, ao contrário, é um sentimento que alimenta da reciprocidade, portanto, amar alguém que não gera correspondência é nutrir a alma com sofrimento. Esta relação paradoxal entre amar e sofrer está associada, em boa medida, ao egocentrismo de quem não é correspondido, querer que o outro te ame sem o outro desejar tal amor é como transformar o curso de um rio caudaloso em lago, o que não será possível para sempre estancar a água, o tempo a fará escorrer pelas extremidades.

Amar é dar ao outro o que não temos, se busco no outro um complemento, desejo nele a parte que me falta, ofereço ao outro portanto um vazio que tenho, por isso, apaixonar-se pelo outro em boa medida é apaixonar pelo desejo da completude de mim mesmo, na esperança de que a fração faltosa de si, esteja no destinatário do amor que projeto. Todo este mecanismo amoroso, na maioria dos casos, cria para aquele que ama e deseja ser amado, uma personagem que atua nos limites do inconsciente, como amor completo e onipotente, contudo, entre a personificação e a realidade de fato e dos fatos, haverá sempre um distanciamento, lacuna em que habita o início do sofrimento.

Amar sem sofrer é possível, para quem encontra em si mesmo a melhor companhia para sua própria existência, sem contudo mergulhar o ego no narcisismo de suas convicções dogmáticas. A solidão que para muitos é assustadora, ao contrário, para quem encontrou em si mesmo uma relação de paz e reciprocidade, passa a ser um lugar privilegiado de silêncio e autoconhecimento, de tal modo que amar para essa pessoa é mais fácil e menos doloroso, haja vista que o outro é uma parcela complementar e não uma fração insubstituível.

Ainda numa perceptiva de destino fadado ao cumprimento daquilo que já está preestabelecido, sofrem nos relacionamentos amorosos as pessoas que acreditam na predestinação do encontro com o outro, ou seja, como se mais cedo ou mais tarde, onde quer que esteja, independente das voltas da vida, Maria encontraria João, e este, independentemente de sua vontade, não escaparia do encontro com Maria, mesmo se ainda quisesse escapar, seria em vão, o destino para esses indivíduos será cumprido de todo modo.

Este modelo de compreensão mecanicista da existência oferece pouco protagonismo da presença do homem no mundo e maior sofrimento na vivência das relações amorosas, porque acreditará sempre que o fim de um relacionamento é o descarrilamento de um projeto de vida pré-estabelecido por forças transcendentes, resultando num vazio de um fracasso profundo, que recai sobre os próprios ombros, a alma perde o prumo e a vida perde o rumo. Perdeu-se o amor que o destino reservou.

Ao contrário da concepção existencial mecanicista, aqueles que compreendem a vida como uma construção dinâmica, aberta às possibilidades do sujeito que a usufrui, sempre terão mais facilidade de conviver com as adversidades da vida amorosa, por compreender que o outro não é uma alma predestinada e sim um encontro probabilístico ocasional, o amor que poderá decorrer desta convergência de dois seres é uma construção recíproca e não um destino consumado.

Precisamos aprender a amar como doação, não como investimento que gera dividendos. Amar que costumeiramente é confundido com paixão, está num plano superior. Apaixonar é o entusiasmo impetuoso para com a personagem que se cria, com propósito inconsciente de representar a idealização do “outro” perfeito, que complementaria a parte vazia do meu “eu” imperfeito, quando, porém, este ser fictício é desvelado e aparenta em si a essência que o constitui, o heroísmo desfalece e a paixão, como um fogo avassalador que passa a ser privado de oxigênio, apaga. Cubra uma vela exuberante com um copo, tal recipiente não será proteção, ao contrário, impedirá a oxigenação do fogo, apagando-o. Amor é uma chama que gera de si sua própria ignição, é nossa modalidade de conduta com esta centelha que determinará o peso ou a leveza de nossa alma, no barco perene e constante do tempo, senhor de si, que sem ser consultado nos atravessa, numa rápida viagem que se apelidou de vida.

Sofrerá menos ou nem sofrerá, quem cedo aprendeu a cuidar sem aprisionar. Aprendeu ainda que encontraremos naquele que desejamos amar a mesma finitude e incompletude que já experimentamos em nós e se visualizamos no outro algum traço de perfeição, certamente neste ponto nosso olhar está turvo, ou a emoção em demasia convenceu a razão de que ela não é senhora de si mesma.

Vale lembrar, viver sem amar é como uma semente que morreu na terra, sem conhecer a potência da árvore que adormecia em si. 

Como a psicanálise é um diálogo interessado sobretudo na escuta de quem fala e no não dito do que se diz, alinhada à filosofia da qual me alimento a décadas, encerro este texto com muito mais apreço a perguntar do que responder, portanto, prestigiado leitor, és tu capaz de amar sem sofrer?

 

Adebar Fernandes.

Psicanalista, filósofo, palestrante, professor. Especialista em Neurociência e Filosofia Contemporânea.

Contato: WhatsApp (63) 991128233 | Canal do Instagram: https://www.instagram.com/psicanalistaadebarfernandes/

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Pílulas de Amor - Por Adebar Fernandes
Sobre Pílulas de Amor - Por Adebar Fernandes
Palmas - TO
Atualizado às 06h38 - Fonte: Climatempo
22°
Poucas nuvens

Mín. 22° Máx. 32°

22° Sensação
15 km/h Vento
94% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (12/05)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 22° Máx. 32°

Sol com algumas nuvens
Thursday (13/05)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 23° Máx. 33°

Sol com algumas nuvens