Centenas de refugiados venezuelanos que vivem em diferentes cidades do Tocantins comemoraram neste sábado, 3, a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, após uma ofensiva militar dos Estados Unidos no país sul-americano. Para muitos imigrantes, o episódio representa o possível fim de um regime que classificam como ditatorial e responsável por anos de crise política, econômica e humanitária.
Em Palmas, venezuelanos ouvidos pela Agência Tocantins afirmaram que a prisão de Maduro simboliza mais do que a detenção de um líder político. “Não é apenas a captura de um presidente, é a liberdade de uma nação inteira que sofreu durante anos com a ditadura chavista”, relatou um refugiado que vive na capital tocantinense.
Além de Palmas, comunidades de venezuelanos estão presentes em cidades como Araguaína, Gurupi e em diversos municípios do interior do estado, onde muitos chegaram nos últimos anos em busca de trabalho, segurança e melhores condições de vida.
Governador do Tocantins manifesta preocupação
Diante da escalada do conflito, o governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), afirmou acompanhar com atenção a situação política e humanitária da Venezuela. Em publicações nas redes sociais, ele demonstrou preocupação com os impactos da crise sobre a população civil e lembrou da realidade enfrentada por imigrantes no Brasil.
“Vemos venezuelanos pelas ruas de Palmas e em outras cidades brasileiras vivendo como andarilhos, e isso nos entristece. Que a democracia e a esperança voltem à Venezuela”, escreveu o governador. Em outra mensagem, Wanderlei Barbosa declarou torcer para que “nossos irmãos sul-americanos encontrem o caminho da paz e da prosperidade”, reforçando o apelo por estabilidade política e social na região.
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Brasil condena uso da força
O presidente do Brasil também se pronunciou sobre os bombardeios em território venezuelano e a captura de Maduro, classificando a ação como uma grave afronta à soberania do país. Segundo o governo brasileiro, o uso da força ultrapassa uma linha inaceitável e cria um precedente perigoso para a comunidade internacional.
“O ataque a países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade”, diz o comunicado. O Brasil destacou ainda que a condenação ao uso da força é coerente com a posição histórica do país e defendeu uma resposta vigorosa da Organização das Nações Unidas (ONU), além da busca por diálogo e cooperação internacional.
Governo venezuelano fala em sequestro
Na Venezuela, a vice-presidente Delcy Rodríguez afirmou, em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, que o país não se tornará colônia dos Estados Unidos e prometeu resistência. Segundo ela, Nicolás Maduro foi “sequestrado” por forças militares norte-americanas por volta de 1h58 da madrugada deste sábado, após bombardeios em território venezuelano.
Rodríguez exigiu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e afirmou que ele é o único presidente legítimo da Venezuela. A vice-presidente acusou Washington de tentar assumir o controle dos recursos naturais do país sob “falsos pretextos”.
“O povo venezuelano jamais será escravo ou colônia de qualquer império”, declarou. O discurso ocorreu minutos após uma coletiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou que Washington governaria a Venezuela até uma “transição segura” e admitiu que empresas norte-americanas explorariam o petróleo venezuelano.
Tensão regional e histórico de intervenções
Delcy Rodríguez informou ainda que todos os órgãos do Estado venezuelano foram acionados por meio de decreto assinado por Maduro para proteger o território nacional. Ela convocou união entre forças policiais, militares e a população, além de agradecer manifestações de solidariedade de outros países.
O ataque marca um novo capítulo na história de intervenções dos Estados Unidos na América Latina. A última invasão direta ocorreu em 1989, no Panamá, quando o então presidente Manuel Noriega foi capturado sob acusação de narcotráfico. Assim como naquele episódio, os EUA acusam Maduro de liderar um suposto cartel conhecido como “De Los Soles”, embora especialistas apontem que não há provas concretas da existência da organização.
Críticos da ofensiva afirmam que a ação tem motivações geopolíticas, incluindo o afastamento da Venezuela de aliados estratégicos dos Estados Unidos, como China e Rússia, além do interesse no controle do petróleo venezuelano, país que detém as maiores reservas comprovadas do mundo.
Enquanto a comunidade internacional reage e a crise se desenrola, refugiados venezuelanos no Tocantins acompanham os acontecimentos com expectativa e emoção, na esperança de que o episódio represente o início de uma nova fase para o país que deixaram para trás.
Reportagem: Allessandro Ferreira / Agência Tocantins