
Ontem, 23, veio ao conhecimento público um incidente envolvendo o deputado federal e pré-candidato ao governo do Tocantins, Vicentinho Júnior (PSDB), e a jornalista Verônica Veríssimo Bolzan, que reacendeu o debate sobre a liberdade de imprensa e a intimidação de profissionais da comunicação no Brasil. A jornalista foi alvo de ameaças por parte do parlamentar após registrar um encontro público em Brasília (DF).
Verônica Bolzan, que atua como jornalista política na capital federal, fotografou Vicentinho Júnior em um local público, um restaurante na semana passada, durante um encontro com o vereador de Palmas, Dr. Vinícius Pires (REP). A pauta do encontro, posteriormente informada pelo deputado, seria a "Terceirização das UPAs" e uma reunião no Tribunal de Contas da União (TCU).
Em sua versão dos fatos, a jornalista relatou que, após compartilhar a imagem com colegas de profissão, o conteúdo foi utilizado em uma matéria jornalística. No entanto, na terça-feira, 23 de junho, ela recebeu uma ligação do deputado, na qual foi explicitamente ameaçada com o ajuizamento de uma ação criminal. "Vou entrar contra você com tudo que couber", teria dito Vicentinho Júnior, conforme gravação da conversa em posse da jornalista.
Bolzan descreveu a ligação como uma tentativa de intimidação e cerceamento de sua liberdade profissional, afirmando ter sido alvo de acusações infundadas. O incidente escalou quando uma publicação, veiculada por um site, utilizou a imagem de sua mãe, que não possui qualquer relação com o fato noticiado ou com a profissão da jornalista, em uma clara tentativa de descredibilizar e atacar a profissional.
Um dia após o encontro, Vicentinho Júnior divulgou um vídeo nas redes sociais afirmando que encaminharia o caso à Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados para apurar se estava sendo alvo de "stalker" ou "arapongagem". Na gravação da ligação para a jornalista, o deputado chegou a afirmar que o veículo identificado como origem da pessoa que tirou a foto pertencia à mãe da jornalista e que "ela e quem estiver com ela no carro vai responder a um processo criminal por stalker".
O deputado também insinuou que a jornalista estaria agindo a mando do prefeito de Palmas, José Eduardo de Siqueira Campos (Podemos), em razão de sua lotação no gabinete da Secretaria Extraordinária de Representação em Brasília, da Prefeitura de Palmas. Ele acusou Bolzan de estar "servindo de maldade de Eduardo Siqueira" para segui-lo.
No diálogo gravado, a jornalista refuta a acusação de estar seguindo o deputado. Em resposta, Vicentinho Júnior intensifica as ameaças: "Eu vou lhe entrar com processo Verônica e você peça pro Eduardo gastar muito dinheiro contigo porque eu vou até o fim"; e continua: "Você vai entender como é que o jogo funciona", concluindo com a advertência: "e arrume um bom advogado agora".
Este episódio levanta sérias preocupações sobre a postura de figuras públicas em relação ao trabalho da imprensa. A fotografia de um encontro em local público entre duas figuras públicas, realizada por uma jornalista no exercício de sua profissão, é uma prática comum e essencial para a transparência e o direito à informação. A tentativa de criminalizar tal ato, sob a alegação de "stalking" ou "arapongagem", configura um ataque direto à liberdade de imprensa e ao direito do cidadão de ser informado.
Posicionamento dos Citados
Diante das acusações de Vicentinho Júnior, o R1 Palmas procurou o deputado para comentar o caso, mas não obteve resposta. O prefeito de Palmas, José Eduardo, por sua vez, optou pelo silêncio em relação às acusações, afirmando que não seria usado para esconder "assédio", indicando que vê o áudio como um assédio do deputado à jornalista. O vereador Dr. Vinícius Pires preferiu não se pronunciar sobre o ocorrido.
A pergunta que permanece é: até onde pode chegar a tentativa de cercear o trabalho jornalístico? A atitude do deputado Vicentinho Júnior, ao ameaçar e tentar intimidar uma jornalista por cumprir seu dever, é um preocupante sinal de desrespeito à Constituição e aos pilares da democracia, que garantem a livre manifestação do pensamento e a liberdade de imprensa. A sociedade e as instituições devem estar atentas para garantir que o jornalismo continue a ser exercido sem medo e sem censura.
(Reportagem: Rafael Alves / R1 Palmas)